Bárbara scheeffer mora em um sítio no interior de santa Catarina onde tem seu ateliê artístico-experimental guiado pelo mundo botânico e artesanal. Iniciou sua jornada e arte com as plantas durante a graduação em Design e consolidou em 2019 criando o Jasmim & Boldo Atelier.

 


G: Quando começou a criar? B: Percebo que durante a infância eu já buscava vazão das emoções e ideias através da criação, especialmente na escrita. Desde pequena gosto de brincar com as palavras, vejo como a minha primeira forma de contato vulnerável com o mundo exterior. Depois me encontrei com a cerâmica e a costura, que foram o estopim para estudar Design na academia. Meu mundo interno sempre foi criativo, imaginativo, observador... e com as manualidades e a poesia fui aprendendo a trazer isso para fora, a partilhar com os outros, a querer impactar, transformar e construir o mundo com o que faço. Acredito que todos os dias eu começo a criar, porque não existe receita, a criação é uma espiral sem ponto de partida ou ponto de chegada, aos poucos vou percebendo que ela extrapola o que convencionalmente definimos para ela, isso que a torna tão misteriosamente divertida.




G: Houve algum marco que fez você se reconhecer como artista pela primeira vez? Como foi esse processo? B: Mesmo sempre me envolvendo com formas de expressão, eu não acreditava ser possível ser considerada artista porque não dominava uma técnica específica com beleza, estava sempre migrando daqui pra lá sem conectar os pontos. Até que experimentei a tecelagem e a estamparia botânica e percebi que o que me tornava artista era o processo de criação, a procura constante de estar ali realocando as peças de lugar e não uma técnica em si. Era um olhar para as coisas, uma vontade de pincelar o mundo interno no mundo externo e vice-versa. O ateliê foi o passo em direção do eu-artista, eu começando a me permitir esse lugar e as pessoas a minha volta passando a me ver dessa maneira também. Ainda é um processo de autoconhecimento, porque afinal, o que é ser artista, não é? Acredito que somos todos artistas em algum aspecto.



G: Por quais técnicas artísticas você está mais encantado no momento? (Que já testou ou não) B: Sou fascinada por técnicas que utilizam material orgânico, plantas, pedras, terra, penas, lã, conchas... Gosto muito de cestarias e tecelagem com fibras rústicas, coletadas na mata. No momento estou me aventurando no bordado em relevo com lã e na secagem de plantas para arranjos florais e colagens. O que mais me encanta em técnicas orgânicas é a possibilidade de dar destaque para detalhes naturais que às vezes passam despercebidos, poder se envolver com esses detalhes através do processo criativo. O formato impressionante de uma semente, a textura de uma folha, a força de um cipó, as cores da terra... O impacto do tempo em tudo que é vivo e a matemática perfeita em cada pedacinho desse mundo é o que mais me chama para criação.



G: De que forma você acredita que ser brasileiro influencia sua arte? B: Somos nosso entorno, tanto imaginário como geográfico. Além da riqueza cultural, a riqueza dos biomas daqui fazem com que o Brasil seja um berço do artesanato com fibras naturais e sementes, do aproveitamento de materiais orgânicos para criação de artefatos úteis e belos. Essa forma de encontrar soluções e inspiração no que a natureza oferece é onde procuro enraizar minha arte, não somente nas técnicas mas também na forma de enxergar a vida e de abrilhantar-lá.



G: O que está te inspirando nessa fase? B: Não tem muito tempo que estou morando em um sítio, e parece bobo, mas no meu dia a dia é o que mais me inspira, ficar horas observando as galinhas ciscando e tomando sol, ver as plantas crescendo, morrendo, brotando, para alguém que cresceu na cidade, mas sempre se encantou pelas plantas, viver no campo é uma realização.





G: Qual a reflexão mais importante que a arte já te trouxe? B: Que nem sempre há uma explicação clara, raramente a criação é uma linha reta e geralmente os processos mais deliciosos de se viver brotam de sementes que você despercebidamente deixou cair na terra.



G: Se você pudesse enviar uma mensagem para sua eu de 5 anos atrás, qual seria? B: Acredito que a relembraria que todas as peças se encaixam, mesmo que não faça sentido no momento, olhando para trás existe uma linha que costura os passos. A vida se constrói segundo a segundo, conhecer-se é um passo em sua própria direção, mas se desconhecer é o passo seguinte, um fluxo infinito que vai costurando a história.



G: Espaço aberto para falar o que quiser: B: Entrar no jardim é esperar o inesperado, o surpreendente. Você não sabe se vai passar um beija-flor à sua frente ou se vai tropeçar em um galho seco, quem sabe os dois, quem sabe nenhum. O jardim é baú de mistérios que só se revelam a cada passo à dentro, há de passar da entrada. Mimetiza a vida e nos leva a reflexões profundas e curativas sobre a existência. Para mim o jardim e os motivos botânicos são uma forma sutil e bela de amenizar a dor de não compreender certos mistérios e assim passar a apreciá-los.

Existe uma necessidade de estarmos em constante contato com o que é vivo e ter a nossa volta pequenos lembretes de onde buscar acalento. Acredito que as plantas são parte importante desse processo, sempre nos despertando para os ciclos biológicos, a relação com o tempo natural, a memória da vida-morte-vida. Elas morrem para brotar, florescem se doando em néctar, e depois de vários ciclos menores estão aptas a alimentar em abundância à quem estiver precisando. Desde muito tempo nos deram abrigo, alimento, remédio e vestes, nos contam segredos sobre a vida quando paramos para olhá-las de frente.


As escolhas para criar a exposição “entrada no jardim” vieram da sensação que dá na barriga quando temos muita curiosidade por algo que vai nos surpreender, a mesma sensação que temos quando uma memória agradável de aconchego profundo volta à mente e nos dá rodopios. Quando você entra em um jardim passa um portal de surpresas, mas que desperta uma familiaridade, porque tudo está no lugar exato que deveria estar, e a cada passo que você dá surge um alívio por finalmente conhecê-lo. Há muitos tipos de jardins, e eles são espelhos de quem os cultiva. Falo de jardim reais cheios de plantas, mas também de jardins interiores, dos corações e mentes, oníricos, subconscientes.


As plantas escolhidas para compor as estampas são as plantas que me acompanharam desde os primeiros testes de estamparia botânica, são as plantas que fazem parte do jardim daqui, algumas comuns a vários jardins, outras nem tanto. Esse jardim encantado que tanto menciono tem origem e nome, criado e cuidado pela minha avó materna Catarina, e pela minha mãe Ivonete. Apreciado pela cidade toda, é um jardim que brilha elogios. Por aqui também, nesse sítio que hoje tenho o ateliê e passei muitos momentos da infância foi onde encontrei com as sementes de Lágrima de Nossa Senhora que agora compõem a coleção nos detalhes. Essa exposição é um convite para entrar e se ver espelho. Cultivar-se.


Fico agradecida à equipe e à todos que prestigiaram a exposição, do fundo do coração espero que tenha aberto portais por aí, como um chamado encerro com Manoel de Barros, que partilhou do mesmo momento de lucidez quando disse “O meu quintal é maior que o mundo” e completo, o jardim é o centro do meu.




 

Obrigada Bárbara ♥



#arteaqui #arteagora

Nascida em Florianópolis em 1996, Nadyne é formada em Design pela UFSC, teve a oportunidade de fazer intercâmbio na FBAU em 2017, o que redirecionou seu caminho profissional para a pintura e demais possibilidades plásticas. Ao retornar, entrou no Atelier de Pintura do CIC, ministrado pelo Artista e Professor Jayro Schmidt, que desenvolveu um papel de mestre na sua construção artística.

 

G: Quando começou a criar?

N: Desde pequena desenhava, pintava e filmava uns stop-motions com massinha hahah. Mas nunca foi algo constante, também havia momentos em que eu ficava por meses ou até anos sem criar, normalmente eram períodos em que eu não estava tão bem.



G: Houve algum marco que fez você se reconhecer como artista pela primeira vez? Como foi esse processo?

N: Até hoje é difícil me auto-intitular como artista, então acredito que vivo esse processo, e sinceramente, não sei se um dia ele acaba. Gosto de pensar que me dedico à criação, seja em pintura, escultura ou design.



G: Por quais técnicas artísticas você está mais encantada no momento?

N: Meu encantamento hoje não seria tanto sobre uma técnica em si, mas tudo que de alguma maneira sai de um plano, do 2D, de uma superfície e vai de encontro com o tridimensional. Inclusive essa própria relação entre a bi e tridimensionalidade me fascinam bastante. Acredito que a série E(I)mergir fale bastante sobre essa passagem entre as dimensões, muitas das obras estão nesse limiar entre ser uma pintura e uma obra tridimensional. Elas são uma sequência de planos pintados que juntos constroem uma terceira dimensão.



G: De que forma você acredita que ser brasileiro influencia sua arte?

N: A inquietação em relação ao que não se vê, ou ao que não se quer ver. Várias das questões que o Brasil vive e, muitas de sofrimento, vêm de uma negligência externa e de uma invisibilidade criada por aqueles que estão por fora dessas vivências. O olhar de quem negligência é treinado paranão enxergar. Acredito que o artista brasileiro vive esse desafio de intervir nesses olhares, o que é complexo, porque são olhos que vivem num estado de anestesia. Mas quando me refiro aessa posição de não enxergar, não falo de algo que é parcial, mas inerente a todos nós. Ao ponto de às vezes o trabalho do artista ser intervir no próprio olhar. Então acredito que para além da famosa pluralidade de referências que o Brasil possui, ele me influencia a persistir nesse desafio que é atravessar esses olhares.



G: O que está te inspirando nessa fase?

N: Já faz um tempo, é sobre o potencial da introspecção e tudo que pertence ao âmbito interno do ser humano. Aprendemos a ser mais produtivos e práticos na contemporaneidade e a não tornar nosso trabalho dependente de crenças supersticiosas, o que é ótimo porque por uma perspectiva nos dá mais poder em relação ao que queremos fazer. Mas junto a isso perdemos a capacidade de olhar para o mundo de forma subjetiva, de nos compreendermos ao nível íntimo, de viver o ócio. E essas capacidades são fundamentais para conseguirmos viver bem, elas têm ligação direta com a direção daquilo que fazemos no externo. Sinto essa carência no mundo e em mim, faz um tempo que estou em busca desse resgate.




G: Qual a reflexão mais importante que a arte já te trouxe?

N: Acredito que seja sobre o potencial da própria arte, já subestimei e duvidei muito do poder que tem, já achei que ela fosse pouco para mudar certas coisas. Hoje consigo perceber a extensão que ela pode percorrer e gosto muito de acreditar nisso. O que continua sendo uma interrogação, é como atingir todo esse potencial. Mas é uma dúvida boa, é o que nos faz seguir buscando e criando.



G: Se você pudesse enviar uma mensagem pra sua eu de 5 anos atrás, qual seria?

N: Até um pouco vergonhoso hahaha, porque sinto que é um clichê, mas é o mais sincero. Eu diria pra acreditar nas minhas inquietações, nos meus sonhos e trazê-los pro campo prático da vida.




 

Obrigada Nadyne ♥



#arteaqui #arteagora

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